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No segundo semestre de 2013 o Teatro Real do Paço da Ribeira, que ficou famoso para a eternidade como Ópera do Tejo, e que é objecto do projecto de recriação virtual que eu iniciei em 2004 e que tem neste sítio a sua «sede electrónica», esteve em destaque adicional devido à – o que poderá parecer, à primeira vista (mas não é), contraditório – arquitectura moderna…

… Ou, mais correctamente, graças a dois arquitectos portugueses contemporâneos: Francisco e Manuel Aires Mateus. Quatro alunas dos dois irmãos – uma portuguesa, duas italianas e uma polaca – elaboraram outros tantos trabalhos de final de curso inspirados na casa de espectáculos mandada construir pelo Rei D. José em Lisboa e destruída pelo terramoto de 1755. Porém, em vez da reconstrução do edifício do século XVIII segundo o que poderia ser a concepção original (de que não se tem conhecimento completo), o que as quatro fizeram, pelo contrário, foram propostas para uma nova Ópera do Tejo, com outros traços e equipamentos, outras estruturas e funcionalidades. Da feérica mas efémera construção setecentista só guardaram o nome e a localização (aproximada). Quase que se pode dizer que se tratam, se não de obras de ficção científica, pelo menos de ficção arquitectónica e/ou urbanística.

A primeira das quatro a ver divulgado o seu projecto foi a portuguesa Inês Sanz Pinto, aluna da Universidade Autónoma de Lisboa, que com o seu «Uma Ópera para o Tejo» foi uma das pessoas galardoadas (aliás, foi uma das cinco mais pontuadas) no âmbito da 11ª edição do Prémio Secil Universidades Arquitectura, relativo a 2012 e anunciado em Agosto do ano passado. Em entrevista concedida posteriormente à UALMedia Inês Sanz Pinto mostrou alguns dos seus planos e explanou os conceitos que lhe estão subjacentes: «Não é uma ópera: é um centro de artes performativas, especialmente para a dança. É um espaço que tem como objectivo ser uma experiência para o usuário, para o público; privilegia o espaço periférico em volta do auditório.» Também «privilegia o rio, a relação com o rio, na medida em que a entrada principal do edifício é através de um barco.» O edifício também é «moldado entre o espaço exterior e o espaço interior», e constitui uma «sucessão de etapas, quase como algo cénico.»

A 28 de Dezembro último, na Revista da edição do jornal Expresso desse dia, e em artigo assinado por Valdemar Cruz, foi a vez das italianas Carlota Giorgetti e Francesca Galliardi e da polaca Pauline Adamczyk serem apresentadas, bem como os seus projectos, por Manuel Aires Mateus, professor das três na Academia de Arquitectura da Universidade da Suíça Italiana, em Mendrisio. Dos conceitos subjacentes àqueles o português destaca: um «território que, pela sua escala, acaba por ser contínuo, dá uma outra dignidade à ideia de ligação»; um «valor objectual no sentido mais directo, e depois toda a espacialidade (que) é dada por uma série de calotes que se intersectam, em que se inclui o programa funcional, com as salas pequenas, os foyers e os espaços celebrativos, criando zonas com várias dimensões»; uma «ideia (que) não é fazer uma Ópera clássica. É a partir das (…) reflexões expectáveis sobe como pode vir a evoluir a Ópera, pensar de que maneira podemos criar infra-estruturas que possam suportar esse programa (…), o valor desse espectáculo e o que se espera da sua evolução, que poderá passar pela criação de formas alternativas para se poder vir a desenvolver no futuro». É de referir que precisamente o «futuro», e, mais concretamente, o ano de 2053, foi o tema dominante não só desta edição de 28 do 12 de 2013 da Revista do Expresso mas também das duas que a antecederam e da que lhe sucedeu; isto porque no ano passado o jornal fundado por Francisco Pinto Balsemão celebrou 40 anos de existência, e uma das formas de assinalar a efeméride consistiu na realização de uma previsão/projecção abrangente e multidisciplinar… para quatro décadas depois. Uma iniciativa cujas características alternativas e especulativas foram reforçadas pela utilização da distópica, «orwelliana», ortografia «acordista».

Estes projectos para uma nova Ópera do Tejo, para uma «versão revista, melhorada, aumentada, actualizada» do lendário edifício, lembram-me o que eu escrevi no meu livro «Espíritos das Luzes»: «O milionário (William Beckford) e o poeta (Manuel Bocage), tal como os restantes privilegiados, lá conseguiam, com maior ou menor dificuldade, passar e penetrar através do resplandecente portal que, para muitos, era como uma porta para um paraíso prematuro… aquele do deslumbramento pela imaginação humana. Uma vez dentro, o difícil era não expressar o encantamento pelos interiores do teatro, que já se adivinhavam do exterior, e que eram o resultado do trabalho dos artificies com maior erudição e das máquinas com maior precisão. A Ópera do Tejo podia dividir-se em três áreas principais: o átrio, que era um enorme, confortável e polivalente espaço de convívio; os ateliers, salas equipadas com uma quase infinita variedade de instrumentos e equipamentos musicais, colocados à disposição dos amadores e dos profissionais para distracção, exercício e/ou gravação antes, durante – nos intervalos – e depois dos espectáculos; e o anfiteatro… do teatro, autêntica nave de uma catedral consagrada à criatividade, com os camarotes, a plateia e o palco mais próximos da perfeição que se podia conceber. E, naturalmente, em todo o edifício continuamente se espalhava, como fragrância em frequência modulada, os sons de música, ao vivo ou gravada, de diferentes composições e em diversos estilos.» (Capítulo 4, «Etéreas flores», página 131) (Também em MILhafre e Simetria.)