A Ópera… e o Palácio do Tejo

Existem muitas «maravilhas de origem portuguesa no Mundo» que, ou estão ainda integralmente, ou quase, preservadas, ou das quais subsistem importantes ruínas e vestígios. Porém, vou (voltar a) referir outra grande «maravilha portuguesa» da qual, infelizmente, nada de concreto restou e que apenas pode(rá) persistir na (fraca?) memória colectiva nacional: o Teatro Real do Paço da Ribeira ou Ópera do Tejo.
Este extraordinário edifício existiu apenas durante sete meses: inaugurado em Abril de 1755, seria destruído aquando do terramoto de 1 de Novembro. Nesse breve período foi, nada mais nada menos, do que a maior, melhor, mais bela «casa da música» da Europa. E em 2004, quando estava prestes a começar a elaboração do meu livro «Espíritos das Luzes», decidi também iniciar um projecto, e respectiva equipa, de «recriação virtual» da Ópera do Tejo, no qual se tentaria utilizar as mais modernas tecnologias disponíveis. Comecei por contactar, e convidar, a professora (na Universidade Aberta) e investigadora (em História de Arte) Maria Alexandra Gago da Câmara, autora do livro no qual eu (re)descobrira aquele monumento; depois, juntaram-se Luís Sequeira e Silvana Moreira, especialistas em computação gráfica (e não só), e que eu conhecia da associação Simetria, da qual somos membros – e que optaram por desenvolver o protótipo da «nossa» Ópera com base na plataforma Second Life.
Esta Ópera do Tejo «revisitada electronicamente» teve «estreia oficial» a 3 de Novembro de 2005 durante o colóquio internacional «O Grande Terramoto de Lisboa: Ficar Diferente», realizado na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e organizado pelo Centro de Estudos Comparatistas daquela instituição e também pela Fundação Cidade de Lisboa. A exibição da animação pôde ser feita, afortunadamente, ao som da música que foi tocada e ouvida na verdadeira, na original Ópera do Tejo: a abertura, precisamente, da ópera «Alessandro nell’Indie», de David Perez – executada, entre outras composições daquele período, pela Orquestra Metropolitana de Lisboa, dirigida pelo maestro Jorge Matta, durante um concerto evocativo dos 250 anos do Terramoto de Lisboa que tivera lugar na Igreja de São Domingos, em Lisboa, dois dias antes. Tendo transmitido em directo e na íntegra aquele espectáculo, a Antena 2 cedeu-nos graciosamente, a meu pedido, um disco com a gravação de parte do mesmo. A nossa (primeira) «interpretação» do Teatro Real do Paço da Ribeira foi posteriormente exibida na RTP2 em 13 de Janeiro de 2006, no programa «Entre Nós» – uma produção da Universidade Aberta.
No passado dia 2 de Dezembro de 2008 (faz hoje uma semana) a «segunda fase» do «Projecto Ópera do Tejo» foi apresentada em Braga, durante o VAST 2008/9º Simpósio Internacional sobre Realidade Virtual, Arqueologia e Herança Cultural, uma organização da Universidade do Minho, da Associação EuroGraphics e do programa europeu Epoch. A equipa foi entretanto reforçada com a entrada de Helena Murteira, da Fundação Calouste Gulbenkian e também historiadora de arte. Com o título «City and spectacle: a vision of pre-earthquake Lisbon», a comunicação que apresentámos no Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa revelou a mudança de perspectiva que efectuámos em relação a 2005: construída agora pela empresa Beta Technologies e com o apoio do Centro de História da Arte e Investigação Artística da Universidade de Évora, a nova «recriação virtual» abrange também, além da Ópera do Tejo, o palácio real pré-1755 em que aquela se integrava. Este é, na verdade, um processo/projecto em desenvolvimento permanente.