Ópera do Tejo

Jommelli, exposto, no S. Carlos

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Neste ano de 2014, e além dos de Pedro António Avondano, também se celebram os 300 anos do nascimento de Niccolò Jommelli, um dos vários italianos que influenciaram, que marcaram decisivamente a música no nosso país, a sua composição e a sua encenação, principalmente no século XVIII, mas também posteriormente. Assim, e para assinalar a efeméride, está patente até 10 de Outubro, no Teatro S. Carlos em Lisboa, a exposição «Della Gloria, e dell’Amor – Olhares sobre a Obra de Niccolò Jommelli (1714-1774) em Portugal». A mostra inclui vários documentos – partituras, libretos, cartas – pertencentes ao Arquivo Nacional Torre do Tombo, à Biblioteca do Palácio da Ajuda e à Biblioteca Nacional de Portugal. Compositor prolífico, tanto no profano (óperas) como no sacro (oratórios, requiens), Jommelli seria sem dúvida uma presença regular numa Ópera do Tejo que tivesse existido para além de 1755.

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«O Mundo da Lua», em Alcobaça

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Se a Ópera do Tejo não tivesse sido destruída aquando do Terramoto de 1755, muito provavelmente esta obra teria sido estreada no seu palco, e não no do Paço Real de Salvaterra de Magos, em 1765, perante D. José, a sua família e parte significativa da corte, ainda a recuperar do cataclismo ocorrido uma década antes: «Il Mondo della Luna», um «drama jocoso» com música de Pedro António Avondano – cujo tricentenário do nascimento se celebra neste ano de 2014 (nasceu em 1714, e a… 16 de Abril) – e libreto de Carlo Goldoni, é hoje tocado e cantado no Cine-Teatro de Alcobaça, no âmbito do Cister Música XXIII, festival realizado anualmente na cidade do famoso mosteiro, pel’Os Músicos do Tejo. Recorde-se que a esta famosa e prestigiada orquestra devemos também, entre outros projectos e actividades, a recriação e a gravação de «La Spinalba», de Francisco António de Almeida, contemporâneo de Avondano. Porém, aqueles que não conseguirem estar hoje em Alcobaça não devem preocupar-se: esta não é a primeira vez, nem será certamente a última, que os MdT levam os seus ouvintes e espectadores até a’«O Mundo da Lua».

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«Antígono», finalmente, em disco(s)!

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Neste sítio, em (Janeiro de) 2011, noticiou-se a estreia mundial moderna – a primeira apresentação desde 1755! – da ópera «Antígono». Foi no Centro Cultural de Belém pela orquestra de música barroca Divino Sospiro. Com música de António Mazzoni e libreto de Pietro Metastasio, «Antígono» foi a terceira – e última – ópera levada à cena no Teatro Real do Palácio da Ribeira… ou, como ficou mais conhecida para a posteridade e eternidade, a Ópera do Tejo…

… E agora, três anos depois, está finalmente disponível (neste momento só por importação) a gravação em disco… ou, melhor dizendo, (três) discos, pela editora Dynamic, que já havia lançado o anterior trabalho discográfico dos Divino Sospiro, «1700 – The Century of the Portuguese». Porém, o projecto só foi concretizado devido a uma campanha de crowdfunding (financiamento colaborativo) iniciada pelos DS. O triplo álbum contém, precisamente, a gravação do espectáculo de há três anos, sob direcção de Enrico Onofri e com as vozes de Ana Quintans, Geraldine McGreevy, Maria Montenegro, Martin Oro, Michael Spyres e Pamela Lucciarini, e que contou também com a colaboração, no guarda-roupa, de José António Tenente – colaboração essa em destaque na imagem da capa.

Uma já está, faltam duas: continuam por gravar e comercializar as outras duas óperas estreadas na Ópera do Tejo, «Alexandre na Índia» e «A Clemência de Tito», também com libretos de Pietro Metastasio e ambas com música de David Perez.

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«Ano Verney» (3): em Évora…

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Depois do primeiro em Lisboa e do segundo no Porto, ambos ainda em 2013, o terceiro grande acontecimento, e evento, do «Ano Verney», projecto cuja preparação eu iniciei em 2011, está marcado para os próximos dias 21 e 22 de Março. É o colóquio «No Tricentenário de Luís António Verney», e vai decorrer na escola que o autor de «Verdadeiro Método de Estudar» frequentou: a Universidade de Évora – mas não será, curiosamente, no (actual) Colégio Luís António Verney, ao contrário do que seria talvez de esperar, mas sim no Colégio do Espírito Santo.

Com organização do Centro de Estudos de História e Filosofia da Ciência e do Centro de Estudos em Letras, ambos da UdE, o encontro contará, entre outras, com as participações e comunicações de António Braz Teixeira, António Cândido Franco, Fátima Nunes, João Príncipe, Maria do Céu Fonseca, Miguel Monteiro e Norberto Cunha. Os resumos daquelas serão adicionados aos das feitas na Biblioteca Nacional e na Faculdade de Letras da Universidade do Porto para uma divulgação posterior cujos detalhes serão, assim o prevemos, divulgados oportunamente.

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Uma nova Ópera do Tejo?

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No segundo semestre de 2013 o Teatro Real do Paço da Ribeira, que ficou famoso para a eternidade como Ópera do Tejo, e que é objecto do projecto de recriação virtual que eu iniciei em 2004 e que tem neste sítio a sua «sede electrónica», esteve em destaque adicional devido à – o que poderá parecer, à primeira vista (mas não é), contraditório – arquitectura moderna…

… Ou, mais correctamente, graças a dois arquitectos portugueses contemporâneos: Francisco e Manuel Aires Mateus. Quatro alunas dos dois irmãos – uma portuguesa, duas italianas e uma polaca – elaboraram outros tantos trabalhos de final de curso inspirados na casa de espectáculos mandada construir pelo Rei D. José em Lisboa e destruída pelo terramoto de 1755. Porém, em vez da reconstrução do edifício do século XVIII segundo o que poderia ser a concepção original (de que não se tem conhecimento completo), o que as quatro fizeram, pelo contrário, foram propostas para uma nova Ópera do Tejo, com outros traços e equipamentos, outras estruturas e funcionalidades. Da feérica mas efémera construção setecentista só guardaram o nome e a localização (aproximada). Quase que se pode dizer que se tratam, se não de obras de ficção científica, pelo menos de ficção arquitectónica e/ou urbanística.

A primeira das quatro a ver divulgado o seu projecto foi a portuguesa Inês Sanz Pinto, aluna da Universidade Autónoma de Lisboa, que com o seu «Uma Ópera para o Tejo» foi uma das pessoas galardoadas (aliás, foi uma das cinco mais pontuadas) no âmbito da 11ª edição do Prémio Secil Universidades Arquitectura, relativo a 2012 e anunciado em Agosto do ano passado. Em entrevista concedida posteriormente à UALMedia Inês Sanz Pinto mostrou alguns dos seus planos e explanou os conceitos que lhe estão subjacentes: «Não é uma ópera: é um centro de artes performativas, especialmente para a dança. É um espaço que tem como objectivo ser uma experiência para o usuário, para o público; privilegia o espaço periférico em volta do auditório.» Também «privilegia o rio, a relação com o rio, na medida em que a entrada principal do edifício é através de um barco.» O edifício também é «moldado entre o espaço exterior e o espaço interior», e constitui uma «sucessão de etapas, quase como algo cénico.»

A 28 de Dezembro último, na Revista da edição do jornal Expresso desse dia, e em artigo assinado por Valdemar Cruz, foi a vez das italianas Carlota Giorgetti e Francesca Galliardi e da polaca Pauline Adamczyk serem apresentadas, bem como os seus projectos, por Manuel Aires Mateus, professor das três na Academia de Arquitectura da Universidade da Suíça Italiana, em Mendrisio. Dos conceitos subjacentes àqueles o português destaca: um «território que, pela sua escala, acaba por ser contínuo, dá uma outra dignidade à ideia de ligação»; um «valor objectual no sentido mais directo, e depois toda a espacialidade (que) é dada por uma série de calotes que se intersectam, em que se inclui o programa funcional, com as salas pequenas, os foyers e os espaços celebrativos, criando zonas com várias dimensões»; uma «ideia (que) não é fazer uma Ópera clássica. É a partir das (…) reflexões expectáveis sobe como pode vir a evoluir a Ópera, pensar de que maneira podemos criar infra-estruturas que possam suportar esse programa (…), o valor desse espectáculo e o que se espera da sua evolução, que poderá passar pela criação de formas alternativas para se poder vir a desenvolver no futuro». É de referir que precisamente o «futuro», e, mais concretamente, o ano de 2053, foi o tema dominante não só desta edição de 28 do 12 de 2013 da Revista do Expresso mas também das duas que a antecederam e da que lhe sucedeu; isto porque no ano passado o jornal fundado por Francisco Pinto Balsemão celebrou 40 anos de existência, e uma das formas de assinalar a efeméride consistiu na realização de uma previsão/projecção abrangente e multidisciplinar… para quatro décadas depois. Uma iniciativa cujas características alternativas e especulativas foram reforçadas pela utilização da distópica, «orwelliana», ortografia «acordista».

Estes projectos para uma nova Ópera do Tejo, para uma «versão revista, melhorada, aumentada, actualizada» do lendário edifício, lembram-me o que eu escrevi no meu livro «Espíritos das Luzes»: «O milionário (William Beckford) e o poeta (Manuel Bocage), tal como os restantes privilegiados, lá conseguiam, com maior ou menor dificuldade, passar e penetrar através do resplandecente portal que, para muitos, era como uma porta para um paraíso prematuro… aquele do deslumbramento pela imaginação humana. Uma vez dentro, o difícil era não expressar o encantamento pelos interiores do teatro, que já se adivinhavam do exterior, e que eram o resultado do trabalho dos artificies com maior erudição e das máquinas com maior precisão. A Ópera do Tejo podia dividir-se em três áreas principais: o átrio, que era um enorme, confortável e polivalente espaço de convívio; os ateliers, salas equipadas com uma quase infinita variedade de instrumentos e equipamentos musicais, colocados à disposição dos amadores e dos profissionais para distracção, exercício e/ou gravação antes, durante – nos intervalos – e depois dos espectáculos; e o anfiteatro… do teatro, autêntica nave de uma catedral consagrada à criatividade, com os camarotes, a plateia e o palco mais próximos da perfeição que se podia conceber. E, naturalmente, em todo o edifício continuamente se espalhava, como fragrância em frequência modulada, os sons de música, ao vivo ou gravada, de diferentes composições e em diversos estilos.» (Capítulo 4, «Etéreas flores», página 131) (Também em MILhafre e Simetria.)

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«Ano Verney» (2): no Porto…

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Depois do congresso «Luís António Verney e a Cultura Luso-Brasileira do seu Tempo», que decorreu em Lisboa, na Biblioteca Nacional, a 16, 17 e 18 de Setembro, vai ter lugar na capital do Norte o segundo grande acontecimento, e momento, do «Ano Verney», da celebração múltipla dos 300 anos do nascimento daquele: a Faculdade de Letras da Universidade do Porto vai realizar, nos próximos dias 3 e 6 de Dezembro, o colóquio «Para uma edição crítica da poesia de Verney», que constitui igualmente o início, a primeira fase de um projecto…

… Que consiste precisamente em dar a conhecer, de uma forma mais alargada e sustentada, o que muitos sem dúvida desconhecem e que constituirá uma (grande) surpresa: que o autor de «Verdadeiro Método de Estudar», da «Metafísica» e da «Lógica» também escreveu versos! Como é referido na apresentação da iniciativa, será desenvolvido, «a partir de uma investigação de Francisco Topa, um projecto articulado de edição crítica da Poesia quase desconhecida de Verney, reunindo destacados especialistas nacionais e internacionais numa cooperação que pretende constituir-se, desde este primordial esforço, em ensaio de um amplo projecto de estudo inter-universitário sobre estrangeirados portugueses no estrangeiro e estrangeiros em Portugal. Serão conselheiros Olivier Bloch (Université de Sorbonne, Paris I), Jonathan Israel (Princeton University) e Laurence Macé (Université de Rouen). Cristina Marinho (Universidade do Porto), Francisco Topa (Universidade do Porto) e Jorge Croce Rivera (Universidade de Évora) coordenarão a comissão científica deste longo exercício concertado.»

Na Universidade de Évora, onde Luís António Verney estudou, deverá igualmente realizar-se, mas em 2014, outro evento de homenagem ao grande filósofo e pedagogo; e que, em princípio, decorrerá no colégio com o seu nome. Se nessa ocasião estiver presente pelo menos um representante da organização do congresso realizado em Setembro na BN, deverão ser oferecidos à UdE exemplares de um postal comemorativo da efeméride, emitido pelos CTT-Correios de Portugal, e apresentado pela primeira vez naquele congresso.

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«Ano Verney»

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É amanhã que começa, na Biblioteca Nacional, em Lisboa, o congresso «Luís António Verney e a Cultura Luso-Brasileira do seu Tempo», iniciativa que eu concebi e cuja comissão organizadora – emanada do Instituto de Filosofia Luso-Brasileira – integro. Este encontro de três dias (16, 17 e 18 de Setembro) de alguns dos maiores especialistas nacionais do século XVIII constitui o evento principal das celebrações do «Ano Verney», apresentado em conferência na BN no passado dia 23 de Julho, data em que se assinalaram os 300 anos do nascimento do multifacetado pensador, escritor, filósofo, pedagogo, iluminista português.

Nessa cerimónia, tida há quase dois meses, e cujos registos vídeo podem ser acedidos aqui, anunciaram-se outras iniciativas previstas: um colóquio de um só dia, no mesmo âmbito do congresso, a realizar no Porto em Dezembro deste ano, em dia e local ainda a determinar e a indicar; espectáculos musicais com base em compositores e em obras do século XVIII, tendo nesse sentido sido pedida a colaboração da Fundação Calouste Gulbenkian, do Movimento Patrimonial da Música Portuguesa, dos Músicos do Tejo e da Orquestra Metropolitana de Lisboa; relançamento e divulgação de livros de Verney – entre as edições mais recentes, destaque para «Cartas Italianas», traduzidas do italiano por Ana Lúcia e Manuel Curado, e para «Lógica» e «Metafísica», traduzidas do latim por Amândio Coxito; um projecto a desenvolver com docentes e discentes de uma faculdade da Universidade de Lisboa, que implica a criação de desenhos inspirados num livro cuja acção se situa num século XVIII «alternativo» e fantástico, e em que uma das personagens se chama… Luís António Verney (mais pormenores serão, espera-se, dados brevemente); acções de carácter cultural e educativo com a Escola (Secundária) Luís António Verney, de Lisboa, procurando levar o conhecimento do seu patrono, dos seus contemporâneos, daquela época, às gerações mais jovens; e o lançamento de um selo e/ou de um postal comemorativo(s) pelos Correios de Portugal – algo que, sem dúvida, já devia ter sido feito há bastante tempo. Entretanto, a exposição a ele dedicada, inaugurada a 23 de Maio e que constituiu, pode dizer-se, a abertura formal – se não mesmo oficial – das celebrações, viu novamente prolongada a sua permanência (inicialmente estava previsto que encerraria a 16 de Agosto) e continuará patente ao público na BN até sexta-feira, 21 de Setembro.

No congresso que amanhã tem início tentar-se-á reequacionar o legado de Luís António Verney, e o dos seus contemporâneos, na actualidade, repensando, em simultâneo, todo o século XVIII luso-brasileiro em várias áreas do conhecimento: Artes, Filosofia, Ciências Naturais, Direito, Economia, Educação, Literatura, Política, Religião… Mais de 30 especialistas e estudiosos foram convidados para explanar e para debater as suas ideias e os seus trabalhos, entre os quais António Braz Teixeira, António Cândido Franco, Artur Anselmo, Duarte Ivo Cruz, José Esteves Pereira, Jesué Pinharanda Gomes, Manuel Curado, Manuel Gandra, Mário Vieira de Carvalho, Miguel Real, Pedro Calafate, Renato Epifânio e Rui Lopo. E ainda as nossas colegas Helena Murteira e Maria Alexandra Gago da Câmara, do projecto «Ópera do Tejo/Lisboa Pré-1755», que intervirão na sessão sobre música e artes plásticas – dia 18, quarta-feira, a partir das 10 horas. Há o objectivo de, posteriormente, em princípio em 2014, editar em livro as actas do congresso.

Em (breve) entrevista concedida (por correio electrónico) a António Araújo para o seu blog Malomil, e publicada neste no passado dia 19 de Julho, justifiquei a homenagem a Luís António Verney com o facto incontestável de ser «um dos autores mais importantes da nossa literatura, e não apenas do século XVIII. Ele não se limitou a ser, o que já não seria pouco, uma das melhores mentes nacionais do seu tempo: também foi uma das melhores da Europa. Pela sua erudição, pela sua facilidade de comunicação, pela sua sensatez… enfim, pelo seu patriotismo, que o levou a contribuir à distância, porque estava em Roma, incansavelmente, durante anos, com o melhor do seu esforço intelectual, para o progresso e o desenvolvimento do seu país, e não só ao nível da educação… Pelo seu eclectismo, pela sua versatilidade, foi um autêntico enciclopedista… aliás, e curiosamente, em 2013 também se comemoram os 300 anos do nascimento de Denis Diderot.» Luís António Verney queria, com efeito,  «instituir um sistema de ensino que abrangesse, que acolhesse, as mais recentes teorias e práticas do seu tempo. Queria “integrar” Portugal na Europa do conhecimento daquela época, “puxar” o país, tanto quanto possível, para a vanguarda da cultura e da ciência que ele via florescer à sua volta. Queria clareza, queria exigência, queria complementaridade, queria rigor, queria eficiência. Queria uma educação caracterizada pela relevância, que não se traduzisse em diletantismo e superficialidade. É por isso, e muito mais, que Verney é ainda hoje, e sempre será, uma referência de excelência.»

Tal como a Ópera do Tejo pode ser entendida como uma «corporização (fugaz) em pedra» de uma «conexão luso-italiana» muito importante durante o século XVIII, Luís António Verney pode ser pensado como uma «corporização em carne e osso» dessa mesma conexão. Porém, ao contrário de compatriotas seus contemporâneos como os músicos António Teixeira, Francisco António de Almeida e João Rodrigues Esteves, ele não voltou a Lisboa depois de vir para Roma.

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